# O Tamanho Real da África: Por Que o Mercator Encolhe um Continente

A África é cerca de 14 vezes maior que a Groenlândia, mas um mapa em Mercator desenha as duas quase iguais. Veja a aritmética por trás da distorção, e por que uma resolução da ONU acabou tratando disso.

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Pendure um mapa-múndi em Mercator na parede e peça a alguém que compare a
Groenlândia com a África. A maioria vai dizer que parecem do mesmo tamanho,
porque naquele mapa elas parecem mesmo.

A África cobre cerca de 30,4 milhões de quilômetros quadrados. A Groenlândia
cobre cerca de 2,2 milhões. A África é aproximadamente **catorze vezes maior**. A
Groenlândia é cerca de 7% da África, que é o mesmo fato dito ao contrário e vale
guardar porque os dois números circulam por aí.

<figure>

![Mapa-múndi em Mercator com a Groenlândia em laranja e todos os países africanos em amarelo, as duas massas de terra parecendo de tamanho comparável](/blog/posts/africa-greenland-mercator.svg)

![As mesmas duas massas de terra na Equal Earth, em que a Groenlândia encolhe para uma lasca ao lado da África](/blog/posts/africa-greenland-equal-earth.svg)

<figcaption>A mesma seleção, duas projeções. No Mercator, a Groenlândia rivaliza com um continente. Na Equal Earth, ela é cerca de 7% dele.</figcaption>

</figure>

Essa diferença é o motivo pelo qual a Assembleia Geral da ONU
[adotou uma resolução sobre projeções cartográficas](/blog/pt/onu-resolucao-mapa-equal-earth/)
em setembro de 2026, e é a substância inteira da campanha Correct the Map que a
União Africana apoiou um ano antes.

## De onde vem a distorção

O Mercator é uma projeção **conforme**: preserva ângulos e a forma local. Isso
não é efeito colateral, é o objetivo de projeto inteiro. Gerardus Mercator a
publicou em 1569 para que um navegador pudesse traçar uma linha reta entre dois
portos e seguir um único rumo de bússola ao longo dela. Nenhuma outra projeção
torna isso tão fácil, e é por isso que ela ainda é a base das cartas marítimas e
aéreas e dos ladrilhos da maioria dos aplicativos de mapa na web.

Preservar ângulo custa área, e o preço não é distribuído por igual. Para manter
as formas localmente corretas enquanto os meridianos são forçados a virar linhas
verticais paralelas, o mapa precisa esticar na vertical pelo mesmo fator que
esticou na horizontal. Esse fator cresce conforme você se afasta do equador, e
cresce rápido.

As consequências correm todas na mesma direção:

- **Perto do equador**, quase nenhuma inflação. A África fica em cima do equador,
  então é desenhada perto do seu tamanho relativo honesto. Ela não é encolhida.
  Todo o resto é que é aumentado.
- **Em latitudes médias**, inflação perceptível. Europa e Estados Unidos ganham
  bastante.
- **Perto dos polos**, inflação extrema. Groenlândia, norte do Canadá, Rússia e
  Escandinávia incham.
- **Nos polos em si**, infinito. É por isso que a Antártida não pode ser
  desenhada num Mercator de verdade, e por isso que os mapas na web cortam por
  volta dos 85 graus.

Ou seja, a frase famosa de que "o Mercator faz a África parecer pequena" erra um
pouco o alvo, e a versão mais precisa é ainda mais dura. O Mercator desenha a
África mais ou menos certa e infla o mundo temperado e polar em volta dela. O
continente não encolhe. Ele é espremido para fora do quadro.

## Por que isso deixou de ser só uma discussão de cartografia

Uma projeção é uma escolha técnica, mas os mapas construídos sobre ela não são
só objetos técnicos. O mapa da parede da sala de aula é, para muita gente, a
única imagem do mundo que essa pessoa vai estudar com atenção na vida, e ele
está trabalhando o senso de proporção dela o tempo inteiro.

Foi esse o argumento do Togo ao apresentar a resolução em nome do Grupo
Africano, e o texto descreveu a correção em termos de justiça cognitiva. Você
pode achar esse enquadramento exagerado e ainda assim conceder o ponto mecânico
por baixo dele, que é o de que uma enorme quantidade de mapas de propósito geral
usa uma projeção de navegação por nenhum outro motivo além de herança, e paga por
isso com uma distorção sistemática que corre sempre para o mesmo lado.

## O que a correção não é

Duas ressalvas, porque as duas foram deturpadas na cobertura.

**Ninguém está propondo aposentar o Mercator.** O texto da ONU o preserva
explicitamente para navegação marítima e aérea. Uma loxodrômica continua sendo
uma loxodrômica, e nenhuma projeção de área equivalente vai te dar uma.

**Área equivalente não significa sem distorção.** Não existe mapa plano sem
distorção. Uma projeção de área equivalente compra área exata gastando o erro na
forma, então na Equal Earth a Groenlândia tem o tamanho certo e a forma errada.
É uma troca melhor para um mapa temático e pior para uma carta pela qual você
pretende navegar. A escolha é entre erros, nunca entre erro e verdade.

## O jeito honesto de conferir

O jeito mais rápido de parar de acreditar na palavra de alguém, inclusive na
nossa, é pintar as duas massas de terra num mapa e virar a projeção por baixo
delas.

Colora a Groenlândia e todos os países da África, depois troque de Mercator para
Equal Earth. Nada nos seus dados muda. Os países selecionados continuam
selecionados, as cores ficam onde estavam, e a única coisa que se mexe é a
fatia do quadro que cada um ocupa. Ver isso acontecer em um clique vale mais do
que qualquer número num parágrafo.

<div class="cta">
  <p><strong>Faça a comparação.</strong> Pinte a Groenlândia e a África, depois alterne entre Mercator e Equal Earth e veja a proporção de catorze para um aparecer.</p>
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Leitura relacionada:
[O que é a projeção Equal Earth?](/blog/pt/o-que-e-a-projecao-equal-earth/)
e
[Como criar um mapa Equal Earth online](/blog/pt/como-criar-mapa-equal-earth-online/).